sábado, 30 de agosto de 2014

10:10

                
São 10:10 da manhã, o despertador toca e eu não quero voltar para casa. Em algumas horas meu vôo sai e deixarei minha realidade paralela amada para trás. Eu não quero deixa-la.
                Nunca imaginei que seria tão difícil descobrir que lá no fundo eu não era tão feliz assim. Ou talvez eu fosse, e agora, apenas, esteja conhecendo uma vida sem passado e sem julgamentos.
                De qualquer forma, eu não quero deixar isto para trás.
                Está decidido, irei ligar para a companhia aérea e cancelar minha passagem. O despertador toca de novo, alguém me chama.
                - Vamos meu bem, temos muito a fazer hoje.
                Finalmente abro os olhos e lá está ele, com meu sorriso preferido me encorajando a sair da cama para a realidade. Sair da cama, de nossa cama.
                - Eu não quero ir embora – digo sem ao menos ter sido perguntada.
                Ele senta-se ao meu lado, acaricia meus cabelos bagunçados e diz calmamente.
                - Eu também não quero que você vá.
                Mais algumas frases foram trocadas e como as horas corriam, tive que finalmente levantar. Depois do banho tomado, saímos para tomar o café da manhã na hora do almoço, como era de costume, na nossa lanchonete favorita.
                Pedimos o de sempre - ele, um café e torradas com mel, eu, um achocolatado.
                Um clima tenso instalado entre ambos, não sabíamos o que falar, ou por aonde começar. Decidi romper o silêncio.
                - Como se sente?
                - Com o quê, Sophi?
                - Bem. Com a minha volta para casa... Eu apenas falei que não quero ir, não te deixei falar o que pensas.
                Ele me olha cuidadosamente, como se estivesse formulando uma frase dolorosa de ser ouvida por mim.
                - Sinto que este é o certo, sabe? Aqui não é o seu lugar. Tens que voltar para a faculdade, emprego, amigos, família... Não vou te pedir que fique, se é isto que queres.
                “Que safado” eu pensei. Ele sabia muito bem o que eu queria e com algumas palavras, havia acabado com minhas esperanças. Resolvi apenas sorrir, o meu sorriso sínico.
                - Tudo bem, você está certo. Não vou jogar tudo isso pelo ralo.
                Mesmo eu não pensando desta forma, resolvi apenas concordar. Talvez ele tenha razão.
                - Vamos? Teu vôo já vai sair.
                - Tudo bem.
                Fomos embora no seu volvo azul escuro, escutando nossas músicas preferidas; por sorte o aeroporto fica ao outro lado da cidade, isto me deu mais tempo ao lado da minha pessoa favorita. Depois de uma hora, ou um pouco mais, chegamos.
                Faltava pouco para meu embarque, despachamos rapidamente as bagagens – que deram exatamente os 23k permitidos pela companhia aérea – e me encaminhei ao meu portão de embarque. Havia chegado a hora
                - Acho que é isto Tob, preciso ir.
                Nossos olhos estavam cravados um no outro, digo que podia ver sua alma naqueles lindos olhos negros. Nos abraçamos.
                - Que difícil são despedidas, hein minha menina?
                - Algumas mais que outras...
                Sorrimos e logo um beijo longo – porém, não o suficiente – e carinhoso foi trocado.
                - Eu preciso ir.
                - Tudo bem... E, eu te amo, Sophi.
                Um sorriso torto foi sua resposta, um leve aceno e entrei na sala de embarque.
                Infelizmente o avião demorou a decolar, tive tempo demais para pensar.
                - Passageiros do vôo JJ1923, podem embarcar.
                Cinto fechado, fones de ouvido colocados e meu refrigerante em mãos, estou pronta para voltar.

sábado, 23 de agosto de 2014

Luíz.

Nunca fui boa em compreender tantas partidas e chegadas, sempre fui a favor da permanência. Também nunca fui boa em lidar com despedidas – eu sempre fugi delas. Mas, de alguma forma, sentia-me obrigada em dizer-lhe adeus todas as vezes que quis ir embora. Não ir “a diante”, ele apenas ia.
Ao que aparentava, ele tinha um grande problema em permanecer.
E foi assim, sempre foi. Ele sempre ia, e eu, ficava a espera de seu regresso.
A primeira vez não lembro ao certo como ocorreu. Ele não despediu-se. Apenas sei que desde então tenho medo do silencio, pois ele se foi, e tudo ficou muito calmo.
O seu primeiro retorno foi o mais demorado – 7 anos foram os dias de minha espera. Dias chegaram ao fim.
Sua segunda partida foi a mais dolorosa, foi no meu dia favorito do ano – ele não se importou com isso. Dessa vez ele despediu-se, disse-me: “fique bem, você é boa nisso”. Graças a ele, sou boa nisso.
 Seu segundo retorno foi também o mais comemorado. Ele veio e trouxe-me um presente, o melhor que eu poderia ganhar, diga-se inclusive. Além de ter sido o mais comemorado, foi o mais breve. E ele se foi, levando meu presente.
Então chegou a vez de seu terceiro retorno. Me senti esperançosa dessa vez – o número 3 sempre foi meu número da sorte – pensei que desta vez, talvez, o número me trouxesse sorte e ele não partisse partindo meu coração novamente. Infelizmente, nem meu número da sorte me trouxe sorte. Ele se foi, deixando comigo apenas um disco de Beatles – o mesmo que ouço enquanto escrevo essas linhas tão pessoais.
E então, eu vivi.
Infelizmente lembrava dele em todos domingos e sextas-feiras. Lembrava quando ouviu “Dont let me donw” – essa sempre foi a lembranças mais dolorosa, inclusive.
 Seu retorno chegou, de dias foi a partida mais curta, entre a sua ida e volta, mas dentro de mim, foi a mais demorada – ao contrário da primeira que de fato foi a mais longa, eu nem vi os anos passarem.
Ele voltou com aquele ar de “sempre estive aqui”, porém ele não estava. Regressou com o mesmo sorriso sínico e o mesmo uísque que me agradava. Ele sempre soube me conquistar. Pediu-me desculpas e disse que não faria mais isso. Pediu também que ficasse – acho que ele sentia que dessa vez, talvez, eu que partisse. Ele foi mais rápido que eu.
Era natal, ele dirigia o seu carro preto e falava-me que em breve ensinar-me-ia dirigi-lo. Falamos também de sorvete de creme, dos planos para o ano novo e de como janeiro seria agradável se fossemos a praia.
O carro foi estacionado na frente da casa ao lado da minha, nos abraçamos e eu disse: “até logo”. Desci do carro e ele foi, como se um dia fosse retornar, mas ele não retornou.
Dois anos passaram-se até o dia em que meu telefone tocou, era ele... Sendo sincera, eu esperava ansiosamente pelo seu retorno. O grande dia havia chegado, graças!
 Telefone continuava a tocar em minha minha mão e eu olhava para o número que havia aprendido de cor a tantos anos atrás, sem ter coragem de atender. E não atendi.
No fundo, ele tinha razão quando pediu-me para ficar. Ele via em meus olhos que eu estava esgotada de tantas partidas e tantas chegadas. Estava nos últimos suspiros de minhas forças para continuar aceitando seu jeito tão livre de ser – no fundo, aquele era o último suspiro. Eu recusei.
Não recusei simplesmente a ligação que o traria de volta para a minha vida, recusei-o dela, de minha vida.
Como disse, nunca entendi a lógica de ir e vir – eu sempre fui boa em ficar. Lá no fundo, eu queria apenas que ele fosse bom em ficar também, entretanto, ele não era.
Desde então eu segui. Segui sem ele, mas com o nosso velho CD de Beatles e com aquela vontade de sempre de sua permanência, que provavelmente, nunca vá acontecer.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O - não tão - esperado.

                
Quando você menos espera, o que se tanto espera – ou em alguns casos, menos espera-se – acontece.
 Não era para ambos estarem naquele jantar na noite fria de 22 de julho. Coincidência ou não, estavam.
                Ela chegou depois dele. Ele de imediato notou sua presença. Ela sentou-se à frente dele e em seguida sorrisos foram trocados.
                Com o passar das horas, a conversa estabeleceu-se. Ela sorrindo sem maldade e ele, querendo conhecer as loucuras existentes nela.
                Falaram sobre livros, música e política.
                Sobre ela, ele pensou: “Que mulher incrível”. E sobre ele, ela comentou: “ Interessante, até. ”
                Mais horas foram passadas, e as afinidades foram se encontrando. Ambos esquerdistas e fãs do Modernismo. Ela sorria e falava sem parar. Ele, escutava-a e fazia comentários pausados a cada bebericada que ela dava no copo de conhaque.
                Sem parar por um instante da noite de manter contato visual, as horas de conversa, pareceram segundos, e já pelas tantas da madrugada, ela decidiu ir.
 Ele, ofereceu a ela carona, ela relutou em aceitar, mas aceitou.
O caminho parecera curto comparado a ida. Em alguns minutos chegaram ao destino.
Ela saltou do carro e cambaleou – não por ter bebido demais, mas, por ser desastrada – ele segurou-a prontamente.
 Sorrindo sem jeito, ela aproveitou a proximidade para dar a ele um abraço de despedida. Um longo silencio foi estabelecido e um beijo trocado com os olhos logo em seguida.
De forma cuidadosa, ele pediu a ela seu telefone. Ela sorrindo, com os olhos e lábios, deu entre risos suaves seu número.
Um outro olhar profundo trocado e ela entrou em sua casa, sem acreditar no ocorrido.
Alguns minutos passaram-se até seu celular tocar. É uma mensagem. Sim dele. Nela dizia: “Nos vemos em breve, querida“. E eles se viram, muitas e muitas outras vezes. Isso foi apenas o início.

                               

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Sobre o happy end after.

Os finais nem sempre são felizes, meus caros. Por mais que esperemos pelo final dos contos de fadas, sinto muito em lhes informar que eles nem sempre acontecem.
Na grande maioria das vezes, a doce menina-mulher espera o príncipe encantado vir salva-la no seu cavalo branco – ou no carro do ano – em busca do seu happy end after. Mas, não ocorre a ela que seu príncipe, na verdade, não queria um final feliz, e sim, apenas ser feliz naquele exato momento.
E o belo príncipe encantado, que busca bravamente a sua princesa frágil e delicada, se entristece quando na verdade encontra uma mulher forte e decidida, que já derrotou seus próprios dragões e não sonha em construir um lar, doce lar, pois ela já possui o seu.
 Agora, pense comigo, se seu príncipe ou princesa chegar, e ele/ela não for o imaginado, o que custa mudar o sonho pela realidade? Ok, ok. Eu sei, todos sonham com o final feliz, mas, quem disse que para ser feliz o fim tem que ser igual ao da Cinderela?
Ou quem sabe, ele/ela possa até chegar, porém, no fim das contas, resolva partir. Pelo o que lembro-me, não existe nenhuma história de princesa separada ou príncipe divorciado.
Pois bem, que tal deixar esse papo de final feliz para a Disney e apenas ser feliz. Sem esperar príncipe, princesa ou coisas do gênero. Afinal, você não é burra o suficiente para comer uma maçã envenenada ou corajoso o bastante para beijar uma mulher que dorme a séculos – não deve haver colgate que dure tanto tempo. 
Tente ser feliz, com o que a nossa dura e doce realidade nos proporciona.


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Olhos de Capitu.

Sobre ele? Ele simplesmente é a melhor e a pior pessoa.
 Ele é todas aquelas coisas clichês que dizem para o seu amor, mas não, ele não é o meu, talvez seja o amor, mas meu, definitivamente não é.
Ele me surgiu do nada, quando eu menos esperava ou queria, de uma forma inusitada. Num “jogo” na verdade – é, eu disse que era, ou ainda é clichê. Surgiu como alguém que diz “bom dia” e se alojou em meu peito. Como alguém não, ele surgiu com um lindo “bom dia” e aqueles olhos ressacados, olhos que me causam grande curiosidade.
 Sinto-o como minha Capitu, sei que não parece haver lógica, mas pense, aqueles olhos, só podem ser de Capitu.
Quem ele é? O meu santo. Santo por ter me livrado de todo aquele mal, sem ao menos notar que estava fazendo isso. Santo pela sua voz e pelo seu grande talento em trazer-me paz. Mas veja, de santo ele não tem nada! Ele bebe, ele xinga, e até me chama para “curtir uma brisa”. Porém ele me faz bem, um bem enorme, e todos ao redor notam. E isso me aborrece.
Sinto que só de ouvir aquela risada sínica, a vida melhora. Que com ele posso ser eu. Sinto-me livre e presa ao mesmo tempo. Como pode ser isso? Eu também queria saber.
Talvez ele sinta-se assim também, talvez não.
 O que ele já me disse? Que sou madura. Aparentemente, todos emitem o mesmo sobre mim, então não me surpreendeu. Que ele diz que choca-me é que simplesmente eu sou “muito”, este “muito” que intriga-me. Não gosto de ser muito. Queria apenas ser na medida – na medida para ele.
Ele me ganha sem se quer tentar.
 Talvez isso não seja algo a mais. Talvez seja apenas o seu jeito de ser. Talvez ele seja assim com todas e eu seja só mais uma que aparentemente é muito ou mais do que devia – o que pode ser outra definição do muito.
Ele é uma incógnita, a minha incógnita com olhos de Capitu. Mas não os olhos dissimulados, os de ressaca. Ele é ele, aquele que não é bom ou mal, ele só é, só é ele, aquele que fez-me apaixonar. Eu que a tanto tempo havia adormecida, sem ter vontade de amar.
 Ele me fez ter vontade.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O acaso.

Ela o ouve rindo baixo enquanto olhava pela janela de sua sala.
- O que houve? – Pergunta Kate, imaginando o motivo do riso de Charlie, naquela noite fria de fim de julho – Está tudo bem?
            Ao desviar o olhar da janela, que tanto prendia sua atenção, sem ao menos saber o motivo, percebeu que Charlie a fitava com aquele riso nos lábios. Não era o riso que ela amava, era um outro.
            - Você... – Disse, respondeu-a com ternura e medo.
            - Eu? O que eu fiz desta vez, meu bem?
 Meio perdido com a pergunta, Charlie hesitou antes de responder.
            - Acho que isto é estranho... Te ver quieta, calada.
            Kate sem entender ao certo a resposta, levanta-se da cadeira e caminha em direção ao sofá azul que Charlie se encontra. Ela se senta no extremo oposto e pensa ao certo como abordar o assunto.
            Ao contrario deste momento, Kate sempre fora uma mulher decidida, dona de si. Porém, a pouco, havia perdido domínio de sua vida.
            Kate Feldon, uma mulher criada por uma família considerada liberal. Que ao invés de fazer aulas de ballet como suas amigas na infância, praticou artes márcias e violino. Que ao sair do ginásio, escolheu viajar pelo mundo, enquanto todos iam para suas faculdades renomadas.
            Ela sempre se considerou dona de seu destino. Esperta demais para se enamorar, e, consequentemente, para sofrer. Até conhecer Charlie Burton.
            Charlie, que indo ao extremo oposto de Kate, fora criado para amar e ser amado.
            Nessas tantas idas e vindas da vida, as vidas de tais deu um nó; tal qual foram entrelaçados muito mais do que se era notado.
            Se conheceram por acaso, numa excursão em que tudo deu errado. Iam mergulhar e acabaram sentados ambos nas docas por terem se atrasado. Ela, por ressacada e ele, por Marina – sua irmã caçula – que a muito vinha sofrendo do mal de não querer ir a aula.
             Depois esta dia, eles encontraram-se diversas vezes - algumas vezes por acaso, outras nem tanto - até o primeiro beijo ser trocado.
            Desde o primeiro encontro faz-se 8 meses, e de seu primeiro beijo, 6 meses e 22 dias.
            Charlie logo tornara-se essencial para Kate. Com ele, ela tivera todas suas certezas que algum dia foram dúvida. Inclusive o amor...
             Era isto, exatamente sobre isto que Kate havia vindo pensando naquele fim de tarde.
            Ela, uma mulher tão desapegada, agora via-se presa porque queria. Ela não queria partir – a não ser que ele a acompanhasse.
            Ao fitar a janela naquele longo período, Kate viu Marina e um vizinho brincando. Vista tal cena, imaginou duas crianças brancas, de cabelos negros e olhos de oceano brincando ali também... Mas, aqueles olhos de oceano só poderiam ser de uma pessoa... Sim, eram de Charlie.
            No momento em que Kate se deu conta de tal devaneio, foi exatamente interrompida com a risada baixa de Charlie, e era seu riso de guizos.
            Sentada no sofá azul, olhando aqueles olhos de oceano, deu-se conta...
            - Eu estava pensando. – Respondeu-o sem jeito.
            Ele riu, porém, não um riso debochado – nem mesmo o de guizos – era o riso simples.
            Charlie puxa-a para junto de se. Envolvendo-a com sua voz e seu corpo, acariciando seus cabelos negros, perguntou:
            - E o que há fez pensar e ficar quieta por tanto tempo?
            Kate sentindo seu corpo estremecer, sentiu seus olhos arderem. O ar faltando - como quando ocorria depois de uma de suas amadas escaldas. Por fim, já sabendo o que passava-se, concluiu, para Charlie e para si – mas muito mais para si.
             - Eu te amo.
            Neste instante, uma pequena lágrima rompeu seu olho direito – aquele mesmo olho que dizem sair a primeira lágrima de felicidade.
            Charlie sem saber o que fazer, beijou-a delicadamente na testa, acariciando sua nuca e por fim, olhando-a nos olhos, respondeu:
            - Eu também amo você, Kate.
            Não era a primeira vez em que ela ouvia-o falar isto, mas ele, sim.
            Depois de um longo abraço, beijos leves trocados, e logo após, calorosas caricias trocadas, Kate percebeu que ali, depois de tanto viajar e procurar, era o seu lugar. Ela não referia-se a cidade litorânea em que estavam, e sim, nos braços de Charlie, seu enfim, amado.

                        

Preto e o pôr-do-sol.

Ela tem os olhos que sorriem, a voz tremula e confortante.
 Seu passado lembra o meu passado. Talvez seja por isto que me dei tão bem com ela, bem a troco de nada, sem ela fazer nada por isso. Apenas por ela ser ela.
Somos incrivelmente parecidas e diferentes.
Ela psicodélica e eu tão zen. Ela preto e eu alaranjado pôr-do-sol. Ela rock e eu brisa.
Mas digo também que nela me vejo. Me vejo nos amigos, nos erros, principalmente nas tentativas. Tentativas essas, que a fazem me admirar. Ela disse: “Você é forte! Saiu dessa! Eu quero sair dessa...”
Eu sei, eu sei que não é fácil sair dessa. Não é até hoje fácil estar fora dessa, nunca é. Sabemos muito bem disso.
“Você é forte”, talvez esse forte que ela viu, seja minha capa. Aquela velha capa invisível de proteção, onde ninguém me alcança, ou se alcança, não vê o que se passa. Ela deixa-me invisível e aparentemente forte – entra aí o eu ser forte.
Sobre ela? Ela me entende. Descrição um tanto egoísta, mas é isso, ela me entende.
 Ela me acha especial, acha que tenho a áurea boa, que sou bela, e que o meu santo vai se arrepender – meu santo, aquele que me deixou por eu ser A e ele me entender Z, ela acha que eu não sou Z.
Sobre a gente? A gente nunca é bom, prefiro que sejamos eu e ela. Espero que eu e ela consigamos ser forte. Eu pare de fingir e ela seja forte de verdade. Que o que nos “liga” esteja apenas no passado...
Mas sabe o que é difícil? Em uma conversa concordamos: O passado nunca é de fato passado, porque ele sempre tá nas nossas memorias, e ficam meio que como um presente zumbindo em nossas cabeças. Louco, não? Mas é isso.
 Só espero, sinceramente continuar “fora dessa”. Que fiquemos fora dessa.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Dois.


Era uma noite bonita. Não, a lua não estava vermelha – foi na véspera da tão famosa lua de sangue. A noite estava bonita por eles.
 Não, eles não se amam, e talvez nada disso nunca mais volta a acontecer. Eles são apenas eles.
Dois corpos entrelaçados em busca de algo a muito perdido por ambos. O que eles haviam perdido? Bem, na verdade nem eles sabem ao certo, só sabem que desde então são incompletos.
Eles dois. Dois amigos de longa data, que passaram por tantos “primeiros” juntos. Agora, ali, num presente que parecia tão difícil de acontecer – mas aconteceu.
Ele, inúmeras vezes disse a ela, num passado não tão distante: “queria a sorte de ter alguém assim na minha vida.” Ela não entendia, ela estava na vida dele, mas agora entendia-o.
Ela simplesmente estava se permitindo. Permitindo-se viver e conhecer. Possuidora de um espirito livre. Talvez esse seja mais um dos motivos de isso ter acontecido. Porém, isso são coisas que eles preferem não se questionar.
Eles simplesmente resolveram viver aquele momento, único provavelmente – como todos sabem, ela não gosta de viver dois do mesmo, ela sempre gostou de coisas únicas.
Falaram, dançaram e se beijaram.
Beijaram todos os beijos a muito guardados em ambos. Uma vontade reprimida por saberem que poderia não ser certo. Mas como eles saberiam que “aquilo” não era certo se nunca experimentassem? Eles resolveram experimentar.
Dançaram sob a lua e ao som de tamborins. Eles rodopiaram e correram. Ela ficou tonta, ele carregou-a. Eles continuaram.
Falaram sobre ela – ela não entende tanto interesse que homens possuem em sua vida, para ela, é só uma vida normal, para eles, algo enigmático. Falaram sobre o dia-a-dia dela, sobre as festas, os corações que ela partiu e a sua mais nova e última vontade, a de partir – ele não sabe, mas ele é o único que sabe disso.
 Depois dormiram.
E depois do depois? Mais nada. Ela foi embora. Deram um abraço de despedida e foi isso. Sem ligações no dia seguinte.
 Não, ela não esperou uma ligação e ele sabe o que é melhor, assim sempre é melhor, eles sabem.

Heranças



Muitas pessoas julgam que herança deve ser algo material deixado por alguém que já se foi, eu discordo. Tenho muitas heranças de pessoas que ainda vivem – algumas na minha vida, e outras que estão apenas vivendo pelo mundo. E eu encaro como herança, ensinamentos que tais me deixaram.
Bem, quando eu tinha dez anos conheci três pessoas que mudaram minha concepção sobre aceitação. Uma era negra, com ela aprendi que amor não tem cor. Outra índia, com ela aprendi que tu podes ser diferente do que tua família é. E a última era gay, com ela aprendi que amar não tem escolhas.Com quinze anos aprendi com um amigo, que o amor não precisa ter lógica. Ele amou-me e aceito-me com todas as confusões existentes em mim. Nos amamos até hoje, agora de outra forma.Mas, pessoas também podem te deixar heranças bem cedo ou então deixa-las sempre. Acho que desde sempre eu tenho uma amiga, a amiga, com ela já aprendi tanto. Aprendi, quando nova, que se dançar no chão molhado pode se conseguir uma cicatriz na testa. Mas com ela, recentemente aprendi, que se você quer ir, você deve ir e que se você ama mesmo, saudades é suportável. Eu também deixei muitas heranças nela.                                              Algumas pessoas te deixam coisas ruins como herança. É meus caros, coisas ruins também permanecem em nós. Por exemplo, um certo cara deixou-me marcas de queimaduras, no corpo e na alma. Nada aparente, ninguém nunca nota, mas elas estão ali, e sempre estarão.Bem, mas quem sempre deixam-nos muitas heranças são nossos pais – não, não estou falando da casa ou do carro.Meu pai deixo-me seu bom gosto musical. Com ele aprendi o que de fato foi, e ainda é Beatles. Aprendi a beber e a fumar. Aprendi a diferenciar os tipos de lagrimas existentes. Aprendi a manter a calma, e o momento certo que uma discussão deve começar e acabar.E com a minha mãe, ah, com essa aprendi tantas coisas! Aprendi a acreditar e a confiar. Aprendi a dar novas chances e que confiança só se dá uma vez a uma pessoa – sim, eu sei que parece confuso. Ela me deixou como herança, também, que devemos amar a todos e a tudo, que apesar de não parecer, todos são merecedores disto e de perdão.Creio que por causa das coisas que ela deixo-me, sou assim, de espirito livre. Pois ela ensinou-me, também, que a vida é só uma e se não deu certo, devemos seguir. Seguir sempre. E que fazer o que se tem vontade é não errado, pois não é errado ser feliz. Ela me deixou de herança os ensinamentos mais belos que poderia adquirir.