terça-feira, 12 de agosto de 2014

O acaso.

Ela o ouve rindo baixo enquanto olhava pela janela de sua sala.
- O que houve? – Pergunta Kate, imaginando o motivo do riso de Charlie, naquela noite fria de fim de julho – Está tudo bem?
            Ao desviar o olhar da janela, que tanto prendia sua atenção, sem ao menos saber o motivo, percebeu que Charlie a fitava com aquele riso nos lábios. Não era o riso que ela amava, era um outro.
            - Você... – Disse, respondeu-a com ternura e medo.
            - Eu? O que eu fiz desta vez, meu bem?
 Meio perdido com a pergunta, Charlie hesitou antes de responder.
            - Acho que isto é estranho... Te ver quieta, calada.
            Kate sem entender ao certo a resposta, levanta-se da cadeira e caminha em direção ao sofá azul que Charlie se encontra. Ela se senta no extremo oposto e pensa ao certo como abordar o assunto.
            Ao contrario deste momento, Kate sempre fora uma mulher decidida, dona de si. Porém, a pouco, havia perdido domínio de sua vida.
            Kate Feldon, uma mulher criada por uma família considerada liberal. Que ao invés de fazer aulas de ballet como suas amigas na infância, praticou artes márcias e violino. Que ao sair do ginásio, escolheu viajar pelo mundo, enquanto todos iam para suas faculdades renomadas.
            Ela sempre se considerou dona de seu destino. Esperta demais para se enamorar, e, consequentemente, para sofrer. Até conhecer Charlie Burton.
            Charlie, que indo ao extremo oposto de Kate, fora criado para amar e ser amado.
            Nessas tantas idas e vindas da vida, as vidas de tais deu um nó; tal qual foram entrelaçados muito mais do que se era notado.
            Se conheceram por acaso, numa excursão em que tudo deu errado. Iam mergulhar e acabaram sentados ambos nas docas por terem se atrasado. Ela, por ressacada e ele, por Marina – sua irmã caçula – que a muito vinha sofrendo do mal de não querer ir a aula.
             Depois esta dia, eles encontraram-se diversas vezes - algumas vezes por acaso, outras nem tanto - até o primeiro beijo ser trocado.
            Desde o primeiro encontro faz-se 8 meses, e de seu primeiro beijo, 6 meses e 22 dias.
            Charlie logo tornara-se essencial para Kate. Com ele, ela tivera todas suas certezas que algum dia foram dúvida. Inclusive o amor...
             Era isto, exatamente sobre isto que Kate havia vindo pensando naquele fim de tarde.
            Ela, uma mulher tão desapegada, agora via-se presa porque queria. Ela não queria partir – a não ser que ele a acompanhasse.
            Ao fitar a janela naquele longo período, Kate viu Marina e um vizinho brincando. Vista tal cena, imaginou duas crianças brancas, de cabelos negros e olhos de oceano brincando ali também... Mas, aqueles olhos de oceano só poderiam ser de uma pessoa... Sim, eram de Charlie.
            No momento em que Kate se deu conta de tal devaneio, foi exatamente interrompida com a risada baixa de Charlie, e era seu riso de guizos.
            Sentada no sofá azul, olhando aqueles olhos de oceano, deu-se conta...
            - Eu estava pensando. – Respondeu-o sem jeito.
            Ele riu, porém, não um riso debochado – nem mesmo o de guizos – era o riso simples.
            Charlie puxa-a para junto de se. Envolvendo-a com sua voz e seu corpo, acariciando seus cabelos negros, perguntou:
            - E o que há fez pensar e ficar quieta por tanto tempo?
            Kate sentindo seu corpo estremecer, sentiu seus olhos arderem. O ar faltando - como quando ocorria depois de uma de suas amadas escaldas. Por fim, já sabendo o que passava-se, concluiu, para Charlie e para si – mas muito mais para si.
             - Eu te amo.
            Neste instante, uma pequena lágrima rompeu seu olho direito – aquele mesmo olho que dizem sair a primeira lágrima de felicidade.
            Charlie sem saber o que fazer, beijou-a delicadamente na testa, acariciando sua nuca e por fim, olhando-a nos olhos, respondeu:
            - Eu também amo você, Kate.
            Não era a primeira vez em que ela ouvia-o falar isto, mas ele, sim.
            Depois de um longo abraço, beijos leves trocados, e logo após, calorosas caricias trocadas, Kate percebeu que ali, depois de tanto viajar e procurar, era o seu lugar. Ela não referia-se a cidade litorânea em que estavam, e sim, nos braços de Charlie, seu enfim, amado.

                        

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