sábado, 23 de agosto de 2014

Luíz.

Nunca fui boa em compreender tantas partidas e chegadas, sempre fui a favor da permanência. Também nunca fui boa em lidar com despedidas – eu sempre fugi delas. Mas, de alguma forma, sentia-me obrigada em dizer-lhe adeus todas as vezes que quis ir embora. Não ir “a diante”, ele apenas ia.
Ao que aparentava, ele tinha um grande problema em permanecer.
E foi assim, sempre foi. Ele sempre ia, e eu, ficava a espera de seu regresso.
A primeira vez não lembro ao certo como ocorreu. Ele não despediu-se. Apenas sei que desde então tenho medo do silencio, pois ele se foi, e tudo ficou muito calmo.
O seu primeiro retorno foi o mais demorado – 7 anos foram os dias de minha espera. Dias chegaram ao fim.
Sua segunda partida foi a mais dolorosa, foi no meu dia favorito do ano – ele não se importou com isso. Dessa vez ele despediu-se, disse-me: “fique bem, você é boa nisso”. Graças a ele, sou boa nisso.
 Seu segundo retorno foi também o mais comemorado. Ele veio e trouxe-me um presente, o melhor que eu poderia ganhar, diga-se inclusive. Além de ter sido o mais comemorado, foi o mais breve. E ele se foi, levando meu presente.
Então chegou a vez de seu terceiro retorno. Me senti esperançosa dessa vez – o número 3 sempre foi meu número da sorte – pensei que desta vez, talvez, o número me trouxesse sorte e ele não partisse partindo meu coração novamente. Infelizmente, nem meu número da sorte me trouxe sorte. Ele se foi, deixando comigo apenas um disco de Beatles – o mesmo que ouço enquanto escrevo essas linhas tão pessoais.
E então, eu vivi.
Infelizmente lembrava dele em todos domingos e sextas-feiras. Lembrava quando ouviu “Dont let me donw” – essa sempre foi a lembranças mais dolorosa, inclusive.
 Seu retorno chegou, de dias foi a partida mais curta, entre a sua ida e volta, mas dentro de mim, foi a mais demorada – ao contrário da primeira que de fato foi a mais longa, eu nem vi os anos passarem.
Ele voltou com aquele ar de “sempre estive aqui”, porém ele não estava. Regressou com o mesmo sorriso sínico e o mesmo uísque que me agradava. Ele sempre soube me conquistar. Pediu-me desculpas e disse que não faria mais isso. Pediu também que ficasse – acho que ele sentia que dessa vez, talvez, eu que partisse. Ele foi mais rápido que eu.
Era natal, ele dirigia o seu carro preto e falava-me que em breve ensinar-me-ia dirigi-lo. Falamos também de sorvete de creme, dos planos para o ano novo e de como janeiro seria agradável se fossemos a praia.
O carro foi estacionado na frente da casa ao lado da minha, nos abraçamos e eu disse: “até logo”. Desci do carro e ele foi, como se um dia fosse retornar, mas ele não retornou.
Dois anos passaram-se até o dia em que meu telefone tocou, era ele... Sendo sincera, eu esperava ansiosamente pelo seu retorno. O grande dia havia chegado, graças!
 Telefone continuava a tocar em minha minha mão e eu olhava para o número que havia aprendido de cor a tantos anos atrás, sem ter coragem de atender. E não atendi.
No fundo, ele tinha razão quando pediu-me para ficar. Ele via em meus olhos que eu estava esgotada de tantas partidas e tantas chegadas. Estava nos últimos suspiros de minhas forças para continuar aceitando seu jeito tão livre de ser – no fundo, aquele era o último suspiro. Eu recusei.
Não recusei simplesmente a ligação que o traria de volta para a minha vida, recusei-o dela, de minha vida.
Como disse, nunca entendi a lógica de ir e vir – eu sempre fui boa em ficar. Lá no fundo, eu queria apenas que ele fosse bom em ficar também, entretanto, ele não era.
Desde então eu segui. Segui sem ele, mas com o nosso velho CD de Beatles e com aquela vontade de sempre de sua permanência, que provavelmente, nunca vá acontecer.

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