Nunca fui boa em compreender
tantas partidas e chegadas, sempre fui a favor da permanência. Também nunca fui
boa em lidar com despedidas – eu sempre fugi delas. Mas, de alguma forma,
sentia-me obrigada em dizer-lhe adeus todas as vezes que quis ir embora. Não ir
“a diante”, ele apenas ia.
Ao que aparentava, ele tinha um
grande problema em permanecer.
E foi assim, sempre foi. Ele
sempre ia, e eu, ficava a espera de seu regresso.
A primeira vez não lembro ao
certo como ocorreu. Ele não despediu-se. Apenas sei que desde então tenho medo
do silencio, pois ele se foi, e tudo ficou muito calmo.
O seu primeiro retorno foi o mais
demorado – 7 anos foram os dias de minha espera. Dias chegaram ao fim.
Sua segunda partida foi a mais
dolorosa, foi no meu dia favorito do ano – ele não se importou com isso. Dessa
vez ele despediu-se, disse-me: “fique bem, você é boa nisso”. Graças a ele, sou
boa nisso.
Seu segundo retorno foi também o mais
comemorado. Ele veio e trouxe-me um presente, o melhor que eu poderia ganhar,
diga-se inclusive. Além de ter sido o mais comemorado, foi o mais breve. E ele
se foi, levando meu presente.
Então chegou a vez de seu
terceiro retorno. Me senti esperançosa dessa vez – o número 3 sempre foi meu
número da sorte – pensei que desta vez, talvez, o número me trouxesse sorte e
ele não partisse partindo meu coração novamente. Infelizmente, nem meu número
da sorte me trouxe sorte. Ele se foi, deixando comigo apenas um disco de
Beatles – o mesmo que ouço enquanto escrevo essas linhas tão pessoais.
E então, eu vivi.
Infelizmente lembrava dele em
todos domingos e sextas-feiras. Lembrava quando ouviu “Dont let me donw” – essa
sempre foi a lembranças mais dolorosa, inclusive.
Seu retorno chegou, de dias foi a partida mais
curta, entre a sua ida e volta, mas dentro de mim, foi a mais demorada – ao
contrário da primeira que de fato foi a mais longa, eu nem vi os anos passarem.
Ele voltou com aquele ar de
“sempre estive aqui”, porém ele não estava. Regressou com o mesmo sorriso
sínico e o mesmo uísque que me agradava. Ele sempre soube me conquistar.
Pediu-me desculpas e disse que não faria mais isso. Pediu também que ficasse –
acho que ele sentia que dessa vez, talvez, eu que partisse. Ele foi mais rápido
que eu.
Era natal, ele dirigia o seu
carro preto e falava-me que em breve ensinar-me-ia dirigi-lo. Falamos também de
sorvete de creme, dos planos para o ano novo e de como janeiro seria agradável se
fossemos a praia.
O carro foi estacionado na frente
da casa ao lado da minha, nos abraçamos e eu disse: “até logo”. Desci do carro
e ele foi, como se um dia fosse retornar, mas ele não retornou.
Dois anos passaram-se até o dia
em que meu telefone tocou, era ele... Sendo sincera, eu esperava ansiosamente
pelo seu retorno. O grande dia havia chegado, graças!
Telefone continuava a tocar em minha minha mão
e eu olhava para o número que havia aprendido de cor a tantos anos atrás, sem
ter coragem de atender. E não atendi.
No fundo, ele tinha razão quando
pediu-me para ficar. Ele via em meus olhos que eu estava esgotada de tantas
partidas e tantas chegadas. Estava nos últimos suspiros de minhas forças para
continuar aceitando seu jeito tão livre de ser – no fundo, aquele era o último
suspiro. Eu recusei.
Não recusei simplesmente a
ligação que o traria de volta para a minha vida, recusei-o dela, de minha vida.
Como disse, nunca entendi a
lógica de ir e vir – eu sempre fui boa em ficar. Lá no fundo, eu queria apenas
que ele fosse bom em ficar também, entretanto, ele não era.
Desde então eu segui. Segui sem
ele, mas com o nosso velho CD de Beatles e com aquela vontade de sempre de sua
permanência, que provavelmente, nunca vá acontecer.

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