Ela o ouve rindo baixo enquanto olhava pela janela de sua
sala.
- O que houve? – Pergunta Kate, imaginando o motivo do riso
de Charlie, naquela noite fria de fim de julho – Está tudo bem?
Ao desviar o olhar da janela, que
tanto prendia sua atenção, sem ao menos saber o motivo, percebeu que Charlie a
fitava com aquele riso nos lábios. Não era o riso que ela amava, era um outro.
- Você... – Disse, respondeu-a com
ternura e medo.
- Eu? O que eu fiz desta vez, meu
bem?
Meio
perdido com a pergunta, Charlie hesitou antes de responder.
- Acho que isto é estranho... Te ver
quieta, calada.
Kate sem entender ao certo a
resposta, levanta-se da cadeira e caminha em direção ao sofá azul que Charlie
se encontra. Ela se senta no extremo oposto e pensa ao certo como abordar o
assunto.
Ao contrario deste momento, Kate
sempre fora uma mulher decidida, dona de si. Porém, a pouco, havia perdido domínio de
sua vida.
Kate Feldon, uma mulher criada por
uma família considerada liberal. Que ao invés de fazer aulas de ballet como
suas amigas na infância, praticou artes márcias e violino. Que ao sair do
ginásio, escolheu viajar pelo mundo, enquanto todos iam para suas faculdades
renomadas.
Ela sempre se considerou dona de seu
destino. Esperta demais para se enamorar, e, consequentemente, para sofrer. Até
conhecer Charlie Burton.
Charlie, que indo ao extremo oposto
de Kate, fora criado para amar e ser amado.
Nessas tantas idas e vindas da vida,
as vidas de tais deu um nó; tal qual foram entrelaçados muito mais do que se
era notado.
Se conheceram por acaso, numa
excursão em que tudo deu errado. Iam mergulhar e acabaram sentados ambos nas
docas por terem se atrasado. Ela, por ressacada e ele, por Marina – sua irmã
caçula – que a muito vinha sofrendo do mal de não querer ir a aula.
Depois esta dia, eles encontraram-se diversas
vezes - algumas vezes por acaso, outras nem tanto - até o primeiro beijo ser
trocado.
Desde o primeiro encontro faz-se 8
meses, e de seu primeiro beijo, 6 meses e 22 dias.
Charlie logo tornara-se essencial
para Kate. Com ele, ela tivera todas suas certezas que algum dia foram dúvida. Inclusive o amor...
Era isto, exatamente sobre isto que Kate havia
vindo pensando naquele fim de tarde.
Ela, uma mulher tão desapegada,
agora via-se presa porque queria. Ela não queria partir – a não ser que ele a
acompanhasse.
Ao fitar a janela naquele longo
período, Kate viu Marina e um vizinho brincando. Vista tal cena, imaginou duas
crianças brancas, de cabelos negros e olhos de oceano brincando ali também...
Mas, aqueles olhos de oceano só poderiam ser de uma pessoa... Sim, eram de
Charlie.
No momento em que Kate se deu conta
de tal devaneio, foi exatamente interrompida com a risada baixa de Charlie, e
era seu riso de guizos.
Sentada no sofá azul, olhando
aqueles olhos de oceano, deu-se conta...
- Eu estava pensando. – Respondeu-o
sem jeito.
Ele riu, porém, não um riso
debochado – nem mesmo o de guizos – era o riso simples.
Charlie puxa-a para junto de se.
Envolvendo-a com sua voz e seu corpo, acariciando seus cabelos negros,
perguntou:
- E o que há fez pensar e ficar
quieta por tanto tempo?
Kate sentindo seu corpo estremecer,
sentiu seus olhos arderem. O ar faltando - como quando ocorria depois de uma de
suas amadas escaldas. Por fim, já sabendo o que passava-se, concluiu, para
Charlie e para si – mas muito mais para si.
- Eu te amo.
Neste instante, uma pequena lágrima
rompeu seu olho direito – aquele mesmo olho que dizem sair a primeira lágrima
de felicidade.
Charlie sem saber o que fazer,
beijou-a delicadamente na testa, acariciando sua nuca e por fim, olhando-a nos
olhos, respondeu:
-
Eu também amo você, Kate.
Não era a primeira vez em que ela
ouvia-o falar isto, mas ele, sim.
Depois de um longo abraço, beijos
leves trocados, e logo após, calorosas caricias trocadas, Kate percebeu que
ali, depois de tanto viajar e procurar, era o seu lugar. Ela não referia-se a
cidade litorânea em que estavam, e sim, nos braços de Charlie, seu enfim,
amado.